sábado, 5 de maio de 2012

Lupi afirma ter “certeza” de vitória de Carlos Eduardo


Durante pronunciamento, Carlos Lupi se dirigiu a Carlos Eduardo, fazendo o pedido para que preencha ao menos 52% dos cargos com mulheres.


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Ex-ministro do Trabalho disse ter “certeza” da eleição do correligionário.
Saiba mais
O presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, prestigiou na manhã deste sábado (5), em Natal, o Seminário de Formação Política promovido pela seção estadual da Ação da Mulher Trabalhista (AMT/RN), movimento feminino do partido. Durante o evento, realizado na Assembleia Legislativa e que trouxe a Natal lideranças nacionais e internacionais de organismos de apoio às mulheres, o líder pedetista no país manifestou confiança na vitória do ex-prefeito e presidente estadual da legenda, Carlos Eduardo, na eleição deste ano para a Prefeitura de Natal. Lupi disse ter “certeza” da eleição do correligionário.

Em seu pronunciamento, Carlos Lupi dirigiu-se a Carlos Eduardo, fazendo o pedido para que o ex-prefeito preencha ao menos 52% dos cargos de sua administração com mulheres. O que levou Carlos Eduardo a comentar em seguida que esse tipo de pedido mostra que Lupi está confiante no êxito de sua candidatura a prefeito de Natal. “Confiante, não. Tenho certeza da sua vitória”, interrompeu o presidente nacional do PDT, motivando os aplausos de todo o público presente.

Carlos Eduardo lembrou que, em sua gestão na Prefeitura de Natal (2002-2008), nomeou mulheres para postos-chave da administração: as secretarias de Planejamento, Educação, Saúde, Assistência Social, Meio-Ambiente e Urbanismo, Tributação, Serviços Urbanos e Controladoria. “Se a gente fizer a soma, chega à conclusão de que pelo menos 70% do orçamento da Prefeitura em nossa administração ficou sob a responsabilidade de mulheres”, destacou ele, atribuindo a essa participação os altos índices de aprovação de seu governo. “Essa aprovação da nossa administração faz com que, aonde eu vá nesta cidade, seja abordado por pessoas pedindo pela volta de quem muito trabalhou e quer trabalhar por Natal”.

Presidente do PDT no Rio Grande do Norte, Carlos Eduardo também ressaltou em seu discurso que está priorizando em seu mandato como dirigente partidário o apoio não apenas às mulheres, mas a outros segmentos representativos da sociedade. Ele fez referência à instalação da própria AMT e de núcleos da Juventude e de Atuação Sindical. Aproveitou ainda para anunciar a criação do Núcleo da Diversidade, a ser implantado até o final do mês.
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Carlos Eduardo participou de seminário em Natal na manhã deste sábado.

Campanha
No discurso do ex-prefeito, também teve espaço para referências à campanha eleitoral deste ano. Reafirmando seu plano de candidatar-se novamente à Prefeitura de Natal, Carlos Eduardo citou sua posição de folgada liderança nas 21 pesquisas eleitorais realizadas desde o final de 2010 até agora. 

Disse ainda ter confiança na aprovação, pela Câmara Municipal, das contas de sua gestão referentes ao exercício de 2008. As contas já foram aprovadas pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE) e agora serão apreciadas pelo Legislativo natalense.

Ele salientou que não há precedente na história da Câmara Municipal de uma decisão que tenha derrubado um parecer do TCE sobre contas de gestores municipais. Lembrou também que a Procuradoria da própria Câmara já emitiu um parecer, recomendando a aprovação do relatório técnico do TCE sobre a contabilidade da Prefeitura em 2008. 

“Estou tranquilo por todas essas razões que acabei de dizer e por acreditar que a maioria dos vereadores não vá se submeter a nenhum tipo de perseguição ou de motivação política contra um cidadão que só fez o bem a esta cidade”, pontuou Carlos Eduardo, conclamando todos os presentes a seguir o andamento do processo na Câmara. “Vamos ficar de olho e chamar os natalenses para acompanhar tudo sobre essa votação”.

Participação das mulheres
A chilena Pia Locatelli, presidente da Internacional Socialista, organização mundial dos partidos social-democratas, socialistas, liberais e trabalhistas, participou do Seminário da AMT/RN e pregou a necessidade de ampliação da participação feminina na política. “É um compromisso que peço ao PDT”, emendou ela.

Presidente da AMT nacional, Miguelina Vecchio, elogiou o trabalho desempenhado pelo núcleo potiguar — coordenado pela contabilista Jartilde Pontes — e destacou ainda a participação das mulheres no plano político como um todo e pediu o engajamento na campanha de Carlos Eduardo. 

“Temos que marchar nesta cidade e politizar o eleitor, mostrando que o PDT é o melhor partido, tem o melhor programa de governo e está verdadeiramente comprometido com o trabalhador, com a Educação e com as mulheres”, ressaltou Miguelina Vecchio. Que arrematou: “Cada mulher precisa fazer da eleição de Carlos Eduardo a sua eleição”.

Lideranças

Várias lideranças políticas participaram do Seminário de Formação Política do PDT e da AMT/RN. Entre elas, o deputado estadual Agnelo Alves (PDT), o prefeito de Parnamirim, Maurício Marques (PDT), o presidente estadual do PPS, Wober Júnior, o presidente municipal do PCdoB, João Oliveira, os vereadores Sargento Regina (PDT), Raniere Barbosa (PRB) e George Câmara (PCdoB) e o vice-presidente estadual do PDT, Sávio Hackradt.
Fonte: Nominuto.com


Leandro Fortes: O crime no poder


Restritas ao noticiário local de Goiânia, as informações sobre uma “minirreforma” no secretariado do governador de -Goiás, Marconi Perillo (PSDB), são o primeiro sinal de que suas ligações com o esquema -conjunto do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) e do bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, prometem levar a crise para dentro do governo goiano.


Transformado em menos de um mês em zumbi político, Torres agoniza pelos corredores do Senado, agora sob risco de ser cassado. Mas não deve naufragar sozinho, se as investigações da Polícia Federal forem aprofundadas. Novos documentos, gravações e perícias que integram o relatório da Operação Monte Carlo, revelados com exclusividade por CartaCapital, apontam uma total sinergia entre o esquema do bicheiro, o senador e o governo de Marconi Perillo.

Em uma interceptação telefônica de 5 de janeiro de 2011, os agentes federais registraram uma conversa entre Cachoeira e seu principal auxiliar, Lenine Araújo de Souza, vulgo Baixinho. Na conversa, o bicheiro, a partir de um telefone em Miami, recebe a notícia de que um de seus indicados para o governo de -Goiás, identificado apenas por Caolho, acabou preterido, sem maiores explicações e aparentemente sem o conhecimento do governador. Segundo homem na hierarquia e braço operacional de Cachoeira, Souza administrava e operava o sistema de contabilidade da quadrilha. Também era responsável pelo pagamento de boa parte das propinas a agentes públicos, em troca de proteção e informação.

“Marconi, hora que souber disso (sic), vai ficar puto”, reclama o bicheiro, no telefonema a Souza. E acrescenta, a seguir: “Já mandei avisar ele (sic)”. Mas adiante, revela, por duas vezes, a ordem dada ao senador Torres para entrar no caso e falar diretamente com o governador. “O Demóstenes já está ligando para ele”, garante Cachoeira.

Mais adiante, no mesmo grampo, o bicheiro pede a Souza para tomar providências e entrar em contato com Eliane Gonçalves Pinheiro, chefe de gabinete do governador. Ela chegou ao cargo no início do ano passado, depois das eleições de 2010, na qual foi responsável -pela arti-culação do tucano para que prefeitos do PP aderissem à campanha do PSDB ao governo estadual. Até então, era ligada ao ex–secretário extraordinário de Assuntos Estratégicos de Goiás Fernando Cunha, importante liderança tucana no estado, falecido em novembro de 2011. Segundo as investigações da PF, uma filha de Cunha é casada com um irmão de Cachoeira.

Outra interferência direta do bicheiro no governo, revelada nos grampos da PF, tem relação com a atuação do coronel Vicente Ferreira Filho, comandante do 3º Comando Regional da Polícia Militar, em Anápolis. Souza refere-se à preocupação de um certo “Ananias”, provavelmente um dos prepostos da jogatina na cidade, com a atuação do oficial. “O Ananias está demonstrando preocupação com o Vicente em Anápolis, hein”, avisa.

Cachoeira informa então a providência tomada. “Já mandei (inaudível), inclusive vai falar com Marconi, hoje à tarde”, diz o bicheiro. Em seguida, tranquiliza o auxiliar sobre a possibilidade de o coronel da PM atrapalhar os negócios em Anápolis, segundo a transcrição da PF. “Não vai, não. Esse comandante pra nóis (sic), ainda vai ser bom. Cê vai ver (sic).” Não há, contudo, nenhuma acusação contra o coronel nos autos da Operação Monte Carlo.

Ciente da encrenca em que está metido, Perillo decidiu usar como desculpa a desincompatibilização do atual secretário de Meio Ambiente, Leonardo Vilela, candidato do PSDB à prefeitura de Goiânia, para mexer na equipe e apagar os rastros de Torres e Cachoeira em seus domínios. Assim, a amiga do bicheiro, Eliane Pinheiro, chefe de gabinete de Perillo, deverá deixar o cargo em breve, sob a improvável promessa de mudar de função. Outro que deve sair e colocar as barbas de molho é o secretário de Infraestrutura, Wilder Morais. Suplente de Torres, poderá assumir a vaga no Senado caso o titular venha a ser cassado.

Será uma vingança e tanto. A mulher de Morais, Andressa, o abandonou no ano passado para viver com Cachoeira. O drama matrimonial chegou a servir de desculpa para o senador Torres -justificar os 298 telefonemas que trocou com o bicheiro nos últimos seis meses. Morais também tomou medidas preventivas e afastou Leandro Gomes Candido do cargo de secretário-executivo da pasta. Candido é marido de uma irmã de Andressa.

Outro da lista é o secretário da Indústria e Comércio, Alexandre Baldy, indicação pessoal de Torres. Baldy é genro do empresário Marcelo Limírio, sócio do senador do DEM em uma faculdade em Goiás. Ex-dono do Laboratório Neo Química, em Anápolis, segunda maior cidade do estado, o secretário mantém ainda uma sociedade com Cachoeira na ICF, empresa fornecedora de testes para laboratórios. Um deles, o Vitapan, de propriedade do bicheiro, era utilizado para lavagem de dinheiro do esquema de jogatina, segundo informações da PF.

“É assustador o alcance dos tentáculos da organização criminosa”, escreveu em 23 de fevereiro deste ano o juiz Paulo Augusto Moreira Lima, da Vara Federal de Anápolis, responsável pela condução processual do inquérito. Segundo o magistrado, “para dar suporte à exploração ilegal de máquinas caça-níqueis, bingos de cartelas e jogo do bicho em Goiás” a quadrilha de Cachoeira montou um incrível esquema de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, contrabando, corrupção, -pe-culato, prevaricação e violação de sigilos.

Ainda de acordo com Lima, o grupo de Cachoeira era altamente “profissionalizado, estável, permanente, habitual, estruturado, montado para cometer crimes graves”. Para tal, mantinha uma “estrutura organizacional e piramidal -complexa” que funcionava graças a uma “estrutura estável, entranhada no seio do estado com, inclusive, a distribuição centralizada de meios de comunicação para o desenvolvimento das atividades, com o objetivo de inviabilizar a interferência das agências sérias de persecução”.

Logo após ser preso, o juiz determinou que Cachoeira fosse transferido para um presídio federal de Mossoró (RN) porque, na petição à Justiça Federal, os procuradores do caso temiam que ele continuasse a comandar o esquema criminoso de dentro de uma prisão de -Goiás. “Em mais de uma década, Carlinhos Cachoeira dedicou-se a comprar informações e proteção de agentes do estado vendíveis. Em outras palavras, tornou a sociedade e o próprio estado mais vulneráveis ao crime”, escreveu Lima.

Os números listados na Justiça Federal falam por si só do tamanho da investigação que une os negócios de Cachoeira com a rotina do governo de Goiás. Ao todo foram identificados como integrantes da quadrilha do bicheiro 43 agentes públicos. Desses, seis delegados da Polícia Civil, 30 policiais militares, dois delegados da PF, um administrativo da PF, um policial rodoviário federal, dois agentes da Polícia Civil e dois servidores municipais. A Monte Carlo gerou 36 volumes de interceptação telefônica, 14 volumes de inquérito policial, três volumes de sigilo bancário e fiscal, além de uma centena de relatórios produzidos pela PF.

Procurado por CartaCapital, o governador Perillo respondeu, via assessoria de imprensa, não possuir nenhuma ligação com o bicheiro. Sobre indicações de Cachoeira para cargos no governo, saiu-se com essa: “Que eu tenha sido informado, não”. Também negou ter havido pressão de Demóstenes Torres para a nomeação de apadrinhados do bicheiro no governo estadual. Por fim, negou ter iniciado uma reforma no secretariado. Seriam “apenas substituições pontuais de auxiliares que serão candidatos nas próximas eleições”.

Enquanto isso, a agonia de Torres parece não ter fim. Na sexta-feira 23, -CartaCapital revelou em seu site que a Polícia Federal sabia desde 2006 de suas ligações com Cachoeira. Três relatórios assinados pelo delegado Deuselino Valadares dos Santos, então chefe da Delegacia de Repressão a Crimes Financeiros da Superintendência da PF em Goiânia, revelam que Torres tinha direito a 30% da arrecadação geral do esquema de jogo clandestino, calculada em aproximadamente 170 milhões de reais nos últimos seis anos. A informação consta de um Relatório Sigiloso de Análise da Operação Monte Carlo, sob os cuidados do Núcleo de Inteligência Policial da Superintendência da PF em Brasília.

Valadares foi um dos 35 presos em 29 de fevereiro na esteira da operação. Nas interceptações telefônicas feitas pela PF com autorização da Justiça, ele é chamado de Neguinho pelo bicheiro. Por estar lotado na delegacia de repressão a crimes financeiros, era responsável pelas operações policiais da Superintendência da PF em todo o estado. Ao que tudo indica, foi cooptado para a quadrilha após descobrir os esquemas de Cachoeira, Torres e mais três políticos goianos também citados por ele na investigação: os deputados federais Carlos Alberto Lereia (PSDB), Jovair Arantes (PTB) e Rubens Otoni (PT).

Em outro grampo da PF, revelado agora por CartaCapital, de 13 de março de 2011, Cachoeira conversa com Idalberto Matias de Araújo, o Dadá, sargento da reserva da Aeronáutica, também preso durante a Operação Monte Carlo. Ele era responsável por obter informações sigilosas de interesse da quadrilha de Cachoeira em troca de um pagamento mensal de 5 mil reais. No grampo, Dadá manda o bicheiro “tranquilizar” Torres. Falava possivelmente da investigação da PF sobre o esquema criminoso.

A informação, proveniente de uma mulher não identificada na conversa, é tachada de “exagerada” pelo araponga da Aeronáutica. “Investigações a baixo nível, entendeu, só a termos de conhecimento”, diz Dadá. “Então, excelente, vou passar para o GORDINHO a informação”, diz o bicheiro. O apelido, segundo a PF, era o código para se referir ao senador do DEM nas conversas entre os dois. Até 2009, Torres pesava 103 quilos. Perdeu 30 quilos após se submeter a uma cirurgia de redução do estômago.

Uma série de outras reportagens divulgada nos últimos dias complicou ainda mais a vida do senador. O jornal O Globo publicou transcrições de interceptações telefônicas nas quais Torres pede ao bicheiro, com quem se comunicava por meio de um aparelho de rádio registrado em Miami, 3 mil reais para pagar despesas de táxi aéreo.

O diário carioca revelou ainda que o parlamentar do DEM usou de seu prestígio para tentar remover, em 2009, um dos principais agentes de uma das investigações sobre a exploração ilegal de máquinas caça-níqueis e videopôquer chefiada por Cachoeira. Tratava-se do policial federal José Luiz da Silva. Torres solicitou ao então secretário de Assuntos Legislativos, Pedro Abramovay, a transferência do agente de Anápolis, área de atuação de Cachoeira, para Goiânia.

Uma reportagem do Jornal -Nacional jogou mais cal sobre a cova do senador, que já admitiu estar “morto politicamente” por causa das denúncias. Trechos de interceptações da Monte Carlo revelam que Cachoeira, em conversa com o contador Giovani Pereira da Silva, pode ter repassado mais de 3 milhões de reais ao senador do DEM.

É possível que em breve venha à tona outra faceta do grupo: o uso de meios de comunicação para atacar adversários. Sabe-se das boas relações de Cachoeira com jornalistas de Brasília, em especial o diretor da sucursal da revista Veja, Policarpo Jr. Segundo blogs da internet, a Polícia Federal teria interceptado mais de 200 telefonemas entre o jornalista e o bicheiro durante o curso das investigações.

Nos inquéritos aos quais CartaCapital teve acesso, Policarpo Jr. é citado mais de uma vez. Em um grampo de 8 de julho de 2011, Cachoeira instrui o sargento Jairo Martins, da PM de Brasília, -para -estancar as informações repassadas ao jornalista. O bicheiro teria se chateado com algum texto publicado na revista. Martins é um famoso araponga brasiliense, acostumado a prestar serviços clandestinos no submundo da comunidade de informações. Foi ele quem, por exemplo, gravou o vídeo em que o ex-funcionário dos Correios Maurício Marinho aparece a embolsar 3 mil reais de propina. Indicado pelo PTB, Marinho foi o estopim do escândalo do chamado mensalão.

O futuro de Torres depende da Pro-curadoria-Geral da República e do Congresso Nacional. Desde 2009, sem nenhuma explicação plausível, o procurador-geral Roberto Gurgel mantinha engavetado um relatório da PF referente à Operação Las Vegas, de 2008, na qual a ligação entre Cachoeira e o senador era -explicitada pela primeira vez em interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça de Goiás. Diante da pressão provocada pelas revelações da Operação Monte Carlo, Gurgel foi obrigado, na quarta-feira 28, a dar seguimento à denúncia, enviada ao Supremo Tribunal Federal.

No Congresso, o destino de Torres está nas mãos do líder do PMDB, Renan Calheiros, e do presidente do Senado, José Sarney, que precisam recompor o Conselho de Ética do Senado. O órgão está acéfalo desde setembro de 2011, razão pela qual ainda não se pode apreciar a representação contra Torres apresentada na quarta-feira 28 pelo senador Randolfe Rodrigues (PSOL). Segundo Rodrigues, está claro que Cachoeira mantém relações “amplas, gerais e irrestritas” com Torres e outras autoridades.

Tão logo o impasse burocrático seja resolvido, o processo de cassação do senador goiano, dado como certo até pelos aliados mais próximos, vai ser iniciado. Torres renunciou à liderança do DEM no Senado e corre risco de ser expulso do partido.

*Leandro Fortes é jornalista e blogueiro.

Fonte: Carta Capital.

TJ-DF suspende liminar de despejo do 'Novo Pinheirinho'


Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJ-DF) suspende ordem de despejo contra integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) que estão acampados há duas semanas em Ceilândia, cidade-satélite a 26 km de Brasília. 



O acampamento, que foi intitulado "Novo Pinheirinho", em referência à reintegração de posse que ocorreu no início do ano em São José dos Campos (SP), é ocupado por 1.300 famílias, cerca de 5 mil pessoas. Segundo informações do MTST, o TJ-DF marcou audiência de conciliação para o próximo dia 15.

Em entrevista, o dirigente nacional do movimento, Edson Francisco da Silva, disse que os ocupados pedem que o governo volte a pagar o auxílio aluguel e providencie áreas para moradia, com possibilidade de financiar as construções pelo programa Minha Casa Minha Vida.

Segundo Edson Francisco da Silva, o movimento não aprova a postura do governo do DF, que havia prometido assentar 400 famílias em 2011 e manter o benefício do auxílio aluguel, no valor de R$ 408, que foi cortado após dois meses.

"O movimento não quer conflito ou violência, mas estaremos preparados caso eles queiram nos tirar daqui. Vai haver derramamento de sangue. As pessoas estão armadas com pedaços de pau, ferro e facões", disse.

Com agências

Fonte: P. Vermelho

Richard D. Wolff: O que o capitalismo proporciona

'O capitalismo não funciona'. A maior parte dos presidentes atravessam um ou mais períodos econômicos maus (recessões, depressões, crises, etc). Todo presidente desde pelo menos Franklin Dellano Roosevelt gerou um "programa" para responder ao período mau – tal como era pedido pelos cidadãos e os negócios.

Por Richard D. Wolff*







FDR e todo presidente posterior prometiam que o seu programa iria "não só livrar os EUA das perturbações econômicas atuais como também garantiria que nem nós nem os nossos filhos precisarão enfrentar tais períodos maus no futuro". Obama foi apenas o mais recente a dizer isso.

Nenhum presidente foi capaz de manter tal promessa. A atual crise capitalista, agora a meio caminho no seu quinto ano sem fim à vista, prova que o impedir de futuros períodos de baixa capitalista iludiu todo presidente do passado e todos os seus prestigiosos e bem pagos conselheiros econômicos. Uma vez que o programa do presidente Obama não é basicamente diferente os anteriores programas presidenciais, não há razão para esperar que ele tenha êxito.

O fracasso em impedir crises capitalistas condenou milhões dos nossos companheiros cidadãos a repetidas devastações de perdas de empregos, benefícios e segurança além de lares arrestados e perspectivas negras para os nossos filhos. Os custos familiares e econômicos do fracasso em lidar com crises capitalistas são estarrecedores. Hoje dezenas de milhões de americanos ou não têm trabalho ou devem aceitar empregos em tempo parcial quando precisam e querem trabalho a tempo inteiro. De acordo com o governo dos EUA, aproximadamente 30 por cento das ferramentas, equipamentos, fábricas, escritórios, espaço comercial e matérias-primas permanecem ociosos. Este sistema capitalista priva-nos da produção e riqueza que podia ser produzida se os empregos negados ao povo fossem combinados com os meios de produção ociosos.

Essa produção poderia reconstruir nossas indústrias e cidades, poderia convertê-las em instituições ambientalmente respeitáveis e poderia aliviar a pobreza nos EUA e mais além. Se empregados, aqueles agora sem empregos podiam ter vidas melhores, manterem seus lares e serem produtivos. Todos nós poderíamos beneficiar-nos enormemente se não fosse o fracasso abjecto do capitalismo para combinar as pessoas que querem trabalhar com meios de produção não utilizados para o que precisamos.

O problema básico tão pouco tem a ver com políticas e programas governamentais. Afinal de contas, os principais partidos políticos, os políticos, lobistas e seus aliados na mídia e na academia cantam todos em uníssono para celebrar o capitalismo. Eles têm insistido ao longo dos últimos cinquenta anos em que a crítica o capitalismo, não importa quão fraco seja o seu desempenho, era tola, sem fundamento, absurda, desleal ou pior. A sua lenga lenga tem sido "o capitalismo cumpre as promessas" ("capitalism delivers the goods").

Por trás da cobertura protectora de uma proibição da crítica quase total, o sistema capitalista estado-unidense deteriorou-se (o resultado habitual quando é proscrita a crítica pública de uma instituição social). Desde o desencadeamento desta crise em 2007, o capitalismo tem estado a "proporcionar dificuldades" à maior parte de nós. Ele ameaça de modo crescente proporcionar dificuldades ainda piores nos anos pela frente. Promotores acríticos do capitalismo estão agora a pressionar o governo a reduzir serviços públicos exatamente quando a massa de americanos os necessita mais do que nunca. O seu slogan e programa básico insistem: "recuperação" econômica para poucos e austeridade para muitos.

Nas décadas de 1950 e 1960, o escalão de rendimento individual que tributava os americanos mais ricos era de 91%, ao passo que hoje é de 35%. Em 1977, o imposto que as pessoas pagavam sobre "ganhos de capital" (ao venderem ativos como ações e títulos a preços superiores aos pagos por eles) era de 40%. Hoje aquela taxa é de 15%. A massa do povo nunca desfrutou de cortes fiscais tão maciços. Estes cortes fizeram os ricos ainda mais ricos enquanto forçavam o governo a tomar dinheiro emprestado para substituir o que já não podia ser obtido através dos impostos sobre os ricos. Como é grotesco que os ricos agora utilizem dívidas do governo como desculpa para eliminar serviços públicos para a massa dos americanos!

A solução para crises capitalistas como aquela que hoje nos aflige não é que o presidente promova outro programa de reformas, regulamentações, estímulos econômicos e orçamentos deficitários. Já passamos por isso e já o fizemos. Isso nunca funcionou para impedir este sistema econômico de condenar o povo a "tempos difíceis" infindavelmente repetidos. Há muito que se deve sujeitar o capitalismo à crítica séria, aberta e pública e debater o que nunca deveria ter sido reprimido. Precisamos examinar se e como os EUA podem fazer algo melhor do que o capitalismo.

Os sistemas econômicos nascem, evoluem no tempo e morrem – como todas as instituições humanas. Em resultado do fim da escravidão e do feudalismo, nasceu o capitalismo. Ele prometia, nas palavras dos revolucionários franceses, "liberdade, igualdade e fraternidade". Fez alguns progressos genuínos rumo àqueles objectivos. Contudo, também ergueu alguns graves obstáculos para alguma vez alcançá-los. O principal deles foi a organização da produção no interior das empresas capitalistas.

Nas empresas corporativas capitalistas que hoje dominam a economia, os seus grandes acionistas e os conselhos de administração que eles selecionam estão na não democrática posição exclusiva de tomarem todas as decisões chave. Os grandes acionistas e conselhos de administração constituem uma pequena minoria daqueles diretamente ligados a empresas capitalistas. A maioria são os trabalhadores das empresas e as populações de comunidades dependentes das mesmas. Mas as decisões da minoria (acerca do que, como e onde produzir e o que fazer com os lucros) impactam a maioria – incluindo provocar crises – sem permitir à maioria qualquer papel direto na tomada de tais decisões. É então dificilmente surpreendente que a minoria exija e esteja em posição de tomar para si própria a riqueza e a fatia de rendimento do leão. Ela igualmente compra o controle da política a fim de impedir a maioria de utilizar o governo para retificar as suas desvantagens e privações econômicas. Eis porque agora temos salvamentos governamentais para os ricos e austeridade para o resto de nós.

A menos que a sociedade se movimente para além da organização capitalista da produção, as crises econômicas continuarão a acontecer e a gerar falsas promessas de políticos de que as impedirão. É ingênuo esperar que a minoria responsável por um sistema que para ela ainda funciona bem democratize a economia e a política. Esta é a tarefa central dos 99%.

*Richard D. Wolff é professor emérito da Universidade de Massachusetts-Amherst e professor visitante no Programa de Graduação em Assuntos Internacionais da New School University, Nova Yok. 

Fonte: Pátria Latina
Apud P. Vermelho

Verticalização em SP irá saturar meio ambiente, diz ativista


No futuro, a capital paulista poderá ser mais poluída, barulhenta, mais quente e intensamente verticalizada. Esse quadro ainda pior do que os paulistanos vivem na atualidade pode se tornar realidade se a prefeitura da capital paulista colocar em prática alguns conceitos em discussão no “Plano SP 2040”, avalia o diretor de comunicação do Movimento Defenda São Paulo, Sérgio Reze.

Por Suzana Vier*




A ONG faz parte do conselho consultivo que discute o plano – de iniciativa da administração municipal – e vê equívoco nos conceitos que foram escolhidos para nortear a São Paulo do futuro, como a noção de “cidade compacta”. Também há problemas na forma como a consulta à população foi realizada.

“O conceito de cidade compacta foi importado da Alemanha, mas de cidades muito menores, que não têm um milhão de habitantes”, disse Reze. “Mas querem colocar esse conceito em São Paulo, que já é espraiada. É totalmente diferente a necessidade.”

A ideia de cidade compacta foi incorporada à consulta pública que a prefeitura encerrou no final de 2011, por meio de questionário no site do SP2040. Segundo Reze, a administração de Gilberto Kassab (PSD) partiu de conceitos prontos e superficiais que não refletem as necessidades dos moradores de cada região da cidade. 

“Essa primeira etapa não propiciou discussão da base para cima, dos locais que as pessoas vivem para cima”, afirmou. “É muito genérico quando você pergunta se as pessoas querem chegar em 30 minutos em qualquer lugar, porque afinal todo mundo quer. Indagar se as pessoas querem uma cidade agradável, segura, todo mundo quer.”

Diante das respostas já esperadas da população à consulta, o ativista teme que o conceito de cidade compacta sirva “para legitimar o desejo do setor imobiliário de verticalizar cada vez mais São Paulo. Vai continuar o processo de saturação do meio ambiente inclusive urbano”.

De acordo com o site do projeto, o SP2040 discute um “plano de longo prazo que pretende orientar uma ampla transformação da cidade nas próximas décadas, apontando para formas de organização social, econômica, urbana e ambiental que assegurem o uso inteligente dos seus recursos e promovam melhores condições de vida para a população”. Entre outros planos para o futuro da cidade, “a São Paulo de 2040 deve se tornar uma base eficiente do ponto de vista territorial e funcional garantindo um bom desempenho urbano para exercer um papel decisivo na internacionalização da economia nacional”.

Ainda segundo a descrição do projeto, "os pesados investimentos necessários para atingir esses patamares terão sido realizados com base tanto na prioridade orçamentária quanto na capacidade de antecipar recursos por meio de parcerias público-privadas lastreadas na valorização dos ativos da cidade. Terá sido fundamental São Paulo assumir e intensificar sua vocação histórica de centro financeiro e de negócios constituindo-se em polo global de atração de investimentos e principal referência no hemisfério sul".

Sem horizonte

O ativista do Movimento Defenda São Paulo analisa que aumentar a verticalização de São Paulo sem resolver problemas de infraestrutura irá piorar a vida na cidade. “A gente não tem infraestrutura de saneamento, rede coletora de esgoto, transporte coletivo. Primeiro a prefeitura deveria resolver esses problemas para reorganizar posteriormente onde for possível", disse. "Quando você põe muitos prédios juntos cria ilhas de calor e efeito estufa, impede a dispersão de poluentes, cria problemas de ruído, diminui a capacidade de circulação do ar e onde tem muitos prédios concentrados não há linha de horizonte.”

Embora a discussão sobre o futuro de São Paulo seja muito bem vista, a ideia de tentar implantar uma cidade compacta, em uma que já é espraiada, pode significar novo impulso ao setor imobiliário. “Dentro do projeto SP2040 há viés de cidade compacta, apontando que será mal usado, para mais uma vez favorecer o setor imobiliário”, afirma.

Reze já vê traços de aplicação desse conceito na área central da capital paulista, onde a prefeitura tenta emplacar o projeto Nova Luz. A medida, que pretende revitalizar a região da Luz com privatização do bairro, enfrenta resistência de moradores e comerciantes da região. A intervenção prevê a reforma de 45 quarteirões com desapropriação de até 50% dos imóveis da região por empresa privada. Segundo lojistas, a privatização do bairro da Luz abre brechas para a privatização de outros bairros e submissão da população aos interesses da iniciativa privada.

“Não se pode usar o conceito da cidade compacta para pegar lugares da cidade onde tudo já está construído e as pessoas já vivem, para legitimar o que o setor imobiliário quer, como o que está ocorrendo na Nova Luz. A área precisa de uma requalificação, mas não destruir tudo para verticalizar intensamente”, disse Reze.

*Suzana Vier é jornalista.

Fonte: Rede Brasil Atual

Apud P. Vermelho

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Ditadura 'incinerou' comunistas

Um mistério que já 38 anos pode ter chegado ao fim. No livro "Memórias de uma Guerra Suja", o ex-delegado do Departamento de Ordem Político Social (DOPS) do Espírito Santo, Cláudio Antônio Guerra, que trabalhou na repressão aos opositores do regime militar, revela que o corpo do potiguar Luiz Ignácio Maranhão Filho, militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), foi incinerado na fornalha de uma usina de processamento de açúcar no interior do Rio de Janeiro. Luiz Maranhão foi preso em São Paulo no dia 3 de abril de 1974 quando saía de uma reunião com  dirigentes do PCB. Ele foi detido por homens do temido delegado Sergio Paranhos Fleury, colocado numa viatura policial e levado para DOPS. 
www.dhnet.org.brLuiz Maranhão Filho: uma nova versão para a morte do militante do Partido Comunista BrasileiroLuiz Maranhão Filho: uma nova versão para a morte do militante do Partido Comunista Brasileiro

O livro, escrito pelos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros com base em depoimento do ex-delegado, revela o destino dos corpos de uma dezena de militantes políticos que até então era um mistério. Além de Luiz Maranhão, foram incinerados na usina de açúcar João Batista e Joaquim Pires Cerveira, detidos na Argentina pela equipe do delegado Fleury; Ana Rosa Kucinsk e Wilson Silva; David Capistrano, João Massena Mello, José Roman, dirigentes históricos do PCB;  Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira e Eduardo Collier Filho, militantes da Ação Popular Marxista Leninista (APML).

De acordo com Cláudio Guerra, o corpo de Ana Rosa "apresentava marcas de mordidas pelo corpo, talvez por ter sido violentada sexualmente." Wilson não tinha as unhas da mão direita. Os torturadores arrancaram a mão direita de Capistrano.  "O forno da usina era enorme. Ideal para transformar em cinzas qualquer vestígio humano", lembra ele. 

Torturador, sabotador, matador de aluguel, Cláudio Guerra era um  dos policiais mais poderosos da década de 1970. "Circulava no eixo Rio-São Paulo-Minas Gerais com a desenvoltura de uma autoridade anônima consciente de seu poder de destruição humana. Hoje é um pastor evangélico que passa boa parte das manhãs de domingo estudando hebraico, e grande parte de seu tempo estudando a Bíblia", informa o livro. 

Foi preso pelo assassinato do bicheiro capixaba Jonathas Borlamarques de Souza e condenado a 18 anos de prisão - que está suspensa judicialmente - pelas mortes da primeira esposa e da cunhada.

Na lista de mortes atribuídas ao repressor estaria também outro potiguar perseguido pela ditadura: Emanuel Bezerra, torturado pela equipe de Fleury. Segundo denúncia dos presos políticos registradas no livro Tortura Nunca Mais, "Emanuel foi morto no DOI/CODI-SP, onde o mutilaram, arrancando-lhe os dedos, umbigo, testículos e pênis. No livro, Guerra relata como matou outro militante - Nestor Veras, do Comitê Central PCB: "Ele tinha  sido torturado e estava agonizando. Dei o tiro de misericórdia, na verdade dois, um no peito e outro na cabeça." 

De acordo com o portal iG, que teve acesso ao livro,  editado pela Topbooks, "o relato de Cláudio Guerra é impressionante. Tão detalhado e objetivo que tem tudo para se tornar um dos roteiros de trabalho da Comissão da verdade, criada para apurar violações aos direitos humanos entre 1946 e 1988.

Notícia surpreende família Santa Cruz

Os 38 anos de procura por um filho morto e torturado durante o Regime Militar foi tema de dois livros da pernambucana Elzita Santa Cruz, mãe do jurista Fernando Augusto Santa Cruz  Oliveira. Ontem, a primeira notícia real sobre o destino do filho, que teve o corpo incinerado em 1974, surpreendeu a família. João Arthur Santa Cruz, que mora em Natal e é irmão de Fernando,  cobra punição aos envolvidos.

Vindo de uma família ligada ao socialismo, João Arthur explicou que Fernando Santa Cruz foi o terceiro filho de Elzita Santa Cruz que foi vítima do Regime Militar. Rosalina e Marcelo, hoje vereador em Olinda, também foram presos e torturados nos anos 70. Fernando Santa Cruz, que cursava Direito e era militante de movimentos políticos, foi impedido de prosseguir no curso e desapareceu no dia 24 de fevereiro de 1974, aos 24 anos de idade.

A prisão ocorreu em um sábado de Carnaval. O jovem estava no Rio de Janeiro, hospedado no apartamento do irmão, Marcelo, que residia na cidade. Fernando foi encontrar com o amigo e também militante político Eduardo Colier, em um bar localizado na rua Praia do Lemos, em Copacabana, zona Sul da capital Fluminense. Marcelo chegou a acompanhar o irmão até as proximidades do bar, mas retornou para casa devido à presença de visitas no apartamento. Foi a última vez que um familiar viu Fernando Santa Cruz - e início da via-crúcis de Elzita.

A mãe do jovem buscou informações junto a pessoas dentro do Exército e clamou pela vida do filho. Elzita percorreu várias unidades onde presos políticos estavam encarcerados e recebeu a notícia de que Fernando estava em um quartel em São Paulo. Chegando lá com roupas e alimentos para o filho, ela disse que não poderia encontrar com Fernando porque ele estava se recuperando de agressões que havia sofrido na prisão e, por isso, somente no outro dia poderia encontrá-lo. Porém, ao retornar, informaram que ele nunca esteve preso no local, o que revoltou a família. "Devolveram a sacola com as roupas e mantimentos com o nome Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira escrito. Mas minha mãe só tinha informado que o nome dele era Fernando Santa Cruz. Como eles sabiam do nome completo se não estava preso?", argumentou João Arthur, que mora em Natal e trabalha na Secretaria Estadual de Saúde  "Minha mãe nunca se conformou e hoje (ontem), com 98 anos, ela está lançando a segunda edição do livro "Onde está meu filho", que trata exatamente sobre o sumiço dos presos da época do Regime Militar. 

Ele disse que os familiares sabiam da morte, mas que a expectativa era que Fernando tivesse sido colocado em uma vala junto a outros presos. O objetivo da família é continuar cobrando que os responsáveis pelos crimes que continuam vivos paguem pelos delitos e informem onde podem estar os restos mortais dos presos. "Torço para que a presidenta finalize a composição da Comissão da Verdade para que sejam apurados todos os crimes e punidos os responsáveis."

Alex RégisMery: aberrações da ditaduraMery: aberrações da ditadura
Livro deve apressar trabalhos da Comissão da Verdade


Militantes dos direitos humanos avaliam que a divulgação dos relatos do ex-delegado do DOPS, Cláudio Guerra, reforça a necessidade de se apressar o trabalho da Comissão da Verdade, a ser criada pela presidência da República para apurar os crimes cometidos durante a Ditadura Militar. A comissão terá sete membros, que ainda não foram escolhidos pela presidenta Dilma Rousseff. Mery Medeiros, ex-preso político e militante da causa, acredita que a comissão é fundamental.

"Estamos sabendo mais do que realmente aconteceu durante a ditadura. Isso, essa confissão, esse mea culpa, é resultado da democracia. Tem coisas que ainda não foram divulgadas e que precisam ser apuradas. A sociedade ainda se choca com as aberrações, as barbáries cometidas naquele período", afirma Mery Medeiros, que ficou preso durante quatro anos. Ele complementa: "A comissão não visa o revanchismo, mas o estabelecimento da verdade".

Marcos Dionísio, também militante na área de direitos humanos, acredita que o livro com as confissões de Cláudio Guerra servirá de estímulo para que mais pessoas falem. "Isso sinaliza com a necessidade de se apressar a criação da comissão da verdade, para pôr um fim no sofrimento das famílias de pessoas atingidas pelo regime", encerra.

Alex RégisHaroldo Maranhão, sobrinho-neto de Luiz MaranhãoHaroldo Maranhão, sobrinho-neto de Luiz Maranhão
Bate papo


Haroldo Maranhão, sobrinho-neto de Luiz Maranhão

Nada muda para nossa família

Como a família viu a divulgação do relato do ex-delegado Cláudio Guerra?

Havia uma versão anteriormente contada pelo médico Amílcar Lobo, que fazia as perícias no regime. Nela, Luiz Maranhão havia recebido uma injeção letal, teve o corpo decepado e jogado em um rio em São Paulo. A nova versão tem fatos diferentes, mas nada muda para a família. Ainda se trata de um ato de barbárie contra um brasileiro, um patriota, um cidadão.

Por que nada muda?

Porque não temos nenhuma prova concreta, nenhum documento, nada que indique com certeza o que aconteceu. Esse relato foi feito por um ex-delegado, mas o Estado brasileiro ainda não se pronunciou sobre o que verdadeiramente aconteceu.

Na sua opinião, esse livro reforça a necessidade de uma comissão da verdade?

Reforça sim, sem dúvidas. Dei uma olhada no material publicado e o que há é a confissão de uma pessoal que participou da ditadura militar. Por que vou acreditar nessa e não na outra versão, embora o relato do ex-delegado tenha vários detalhes? São relatos trágicos e dolorosos que revelam a barbárie praticada nesse país.
Fonte: TNOnline

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